Descobrindo o valor das traduções dos textos bíblicos

Artigo preparado para o curso Transforme do Centro de Juventude Cristã

Quando o livro da Lei foi lido pelo sacerdote Esdras no dia em que era celebrado o reassentamento do povo na Jerusalém reconstruída, pós-exílio Assírio e Babilônico, a leitura das Escrituras durante a cerimônia precisou ser traduzida e explicada para que o povo entendesse o que era lido (Neemias 8:8 - NTLH). A língua hebraica do texto bíblico era provavelmente desconhecida da maioria dos judeus que retornara do exílio falando a língua de seus conquistadores: o aramaico. Os “Targumim” são traduções parafraseadas e comentários interpretativos das Escrituras hebraicas na língua aramaica, uma tradução que surgiu por necessidade óbvia: o que adianta ter um Bíblia que ninguém consegue ler depois do exílio? Todavia a tradução das Escrituras para o aramaico tornou-se solução temporária.

A conquista dos macedônios impôs a assimilação da língua grega, e os judeus da diáspora já não podiam ler nem a Bíblia Hebraica e nem os “Targumim” em suas línguas originais. Para que todos tivessem acesso à Palavra de Deus, por volta do século II a.C., uma nova tradução da Bíblia Hebraica, agora na língua grega, foi produzida por setenta tradutores, obra que passou a ser conhecida como Septuaginta. O sucesso da “tradução dos setenta” está presente no Novo Testamento, uma vez que quase todas as citações do Antigo Testamento no Novo Testamento são extraídas da Septuaginta, sem dúvida, o texto mais acessível para os leitores da época.

Quando analisamos nossa história judaico-cristã, percebemos que tradução bíblica não é novidade. Seria inconcebível considerar Mateus 28:19-20 sem, ao mesmo tempo, atender a demanda por tradução das Escrituras, haja vista a necessidade de ensinar tudo aquilo que Cristo nos ensinou e manter as comunidades cristãs fiéis aos fundamentos estabelecidos pelos apóstolos e profetas (Efésios 2:20). A tradução bíblica foi uma necessidade premente em toda a história de expansão das boas novas e, às vezes, tão penosa quanto a própria atividade missionária. Entre os mártires da igreja encontramos William Tyndale, queimado na fogueira em 1536, na Bélgica, por traduzir a Bíblia para o inglês em linguagem simplificada. O desejo de Tyndale era produzir uma nova tradução bíblica tão fácil de ler que “todo menino que puxa o arado pudesse ler e entender mais de Bíblia que o clero”. Era o desejo também de Martinho Lutero: “Deveríamos interrogar a mãe em sua casa, as crianças na rua e o homem comum no mercado, para observar como falam e então traduzir em conformidade com isso”.

As primeiras traduções da Bíblia em português chegaram ao Brasil com os colonizadores para a evangelização. Portanto, as traduções do padre Antônio Pereira de Figueiredo, popular entre os católicos, e a famosa João Ferreira de Almeida, que predominou nas igrejas protestantes até pouco tempo em duas edições: Almeida Revista e Corrigida e Almeida Revista e Atualizada, dominaram o cenário brasileiro por longos séculos. Hoje, encontramos facilmente, pelo menos, uma dúzia de traduções em nossas livrarias; mas se tudo é Bíblia, por que as traduções são diferentes? Há, basicamente, três motivos para gerar essas diferenças, vamos estudar cada uma delas:

Divergência de base textual: Não temos mais os manuscritos originais que saíram das mãos dos escritores bíblicos. O que temos são cópias das cópias. Essas cópias, feitas à mão, foram produzidas por duas necessidades: o material original se deteriorava com o uso e a ação do tempo, e o texto precisava ser copiado para um novo papiro ou pergaminho para sua preservação ou alguém encomendava uma nova cópia do texto para sua distribuição. Com o desenvolvimento da prensa móvel de Gutenberg, a partir do século XV, o teólogo e filósofo humanista holandês Erasmo de Rotterdam colecionou os melhores manuscritos do Novo Testamento conhecidos em sua época para editar e publicar o que ficou conhecido como “Textus Receptus”. A prensa móvel permitiu a publicação fácil, rápida e econômica dos textos bíblicos. Estima-se que a cópia de uma página em pergaminho ou papiro no primeiro século da era cristã poderia facilmente custar o equivalente ao valor pago por um livro de 200 páginas hoje. Uma cópia completa das Escrituras poderia custar o valor de uma casa! A invenção da prensa móvel de Gutenberg popularizou a produção de cópias de textos, incluindo a Bíblia.

Foi nesse contexto que Almeida realizou seu trabalho. Na impossibilidade natural de conseguir manuscritos dos textos bíblicos, Almeida fez uso do trabalho de Erasmo de Rotterdam adotando o “Texto Recebido” como seu texto base para a tradução do Novo Testamento grego para o português. Contudo estamos falando do contexto do século XVII, o que acontece depois?

Muitos manuscritos, mais antigos e melhor preservados, do Novo Testamento foram encontrados a partir do século XIX. Constantin von Tischendorf é considerado pioneiro nessa empreitada de descobrir e classificar (datação, qualidade etc) os manuscritos bíblicos. Através do trabalho de Tischendorf e outros após ele, como Brooke Foss Westcott, Fenton John Anthony Hort, Eberhard Nestle e Kurt Aland, conclui-se que uma atualização do texto bíblico era necessária à luz de novas descobertas e pesquisas. O resultado dessa atualização ficou conhecida como “Texto Crítico”.

Portanto, a divergência que encontramos entre algumas traduções do Novo Testamento, por exemplo, se dá pela escolha de base textual, isto é, a escolha do conjunto de manuscritos do texto grego. Para exemplificar, boa parte das divergências entre a Almeida Revista e Corrigida e Almeida Revista e Atualizada é produto da adoção de base textual diferente.

Há pequenas divergências na ordem de algumas palavras, como “Jesus Cristo” e “Cristo Jesus”; confusão entre letras de algumas palavras, como encontradas em Rm 6:5, Jd 12, Hb 4:11, 1Co 5:8 e At 1.3; entre outros problemas naturais para cópias feitas à mão nem sempre produzidas por escribas (copistas profissionais).

Vale enfatizar que essas divergências entre manuscritos não comprometem a mensagem bíblica. Não há contradição ou mudança significativa de conteúdo do texto bíblico para a maioria das divergências, e aquelas mais significativas já foram identificadas e corrigidas nos aparatos críticos depois de muita pesquisa e estudo. A Palavra de Deus continua fiel e verdadeira!

Divergência de metodologia de tradução: Uma boa tradução era definida pela sua literalidade, i.e., o zelo na tradução palavra por palavra. Esse conceito está ultrapassado. Hoje, ser fiel ao original não significa mais ser fiel à palavra em sua equivalência exata entre as línguas, mas sim ser fiel ao sentido da mensagem, refletindo a “intenção” do autor. Assim, a advertência de Pedro (1Pe 1:13) pode receber uma tradução por equivalência formal (literal) e deixar por conta do leitor o estudo necessário dos usos e costumes da época para entender seu significado, ou traduzir a mensagem de Pedro em sua equivalência dinâmica (semântica) privilegiando assim uma comunicação mais clara e direta na língua receptora.

Em uma tradução por equivalência formal, a expressão idiomática da língua original é traduzida literalmente: “cingir os lombos” (1Pe 1:13). O que isso significa em nosso idioma? Nada! O leitor comum da Bíblia precisa pesquisar para descobrir seu sentido, que era claro para os leitores originais. Como as roupas eram compridas nos tempos bíblicos, era necessário levantar suas barras até à cintura e amarrá-las com uma corda, que servia de cinto, permitindo maior movimento das pernas para o trabalho. A expressão significa, portanto, “preparar-se para o trabalho”. Em uma tradução por equivalência semântica, poderíamos pensar numa tradução mais clara para os leitores atuais em nossa própria língua: “arregaçar as mangas” – uma tradução não literal, contudo fiel à intenção do autor!

Para exemplificar esse tipo de divergência, podemos citar a Almeida Revista e Atualizada e a Nova Versão Internacional. Embora adotem a mesma base textual, isto é, o Texto Crítico, a metodologia de tradução é diferente. A Almeida adota a tradução por equivalência formal, a NVI emprega a tradução por equivalência dinâmica.

Divergência hermenêutica: As línguas originais do texto bíblico não são mais os mesmos idiomas que encontramos atualmente em Israel e Grécia. Essas línguas evoluíram e mudaram muito com o tempo, e, nem sempre, a palavra em hebraico ou grego é clara em seu significado e emprego. Além desse fator linguístico, aspectos culturais, sociais, econômicos, políticos e geográficos da narrativa bíblica podem ser determinantes na interpretação do texto. Portanto, algumas divergências entre traduções são produzidas por força da interpretação que os tradutores têm do texto. Um bom exemplo para essa divergência hermenêutica pode ser encontrado em Cantares 1:9 entre as traduções Almeida Revista e Atualizada e a Nova Versão Transformadora:

ARA – “Às éguas dos carros de Faraó te comparo, ó querida minha”.

NVT – “Você é cativante, minha querida, como uma égua entre os cavalos do faraó”.

A tradução depende do entendimento que o tradutor tem do emprego ambíguo de uma preposição hebraica, presente no texto original, e como a poesia hebraica deve ser interpretada à luz de todas as suas idiossincrasias culturais e linguísticas.

Precisamos de todas essas traduções? Sim! As traduções formais, que seguem a literalidade do texto, palavra por palavra, são ideias para quem deseja fazer a exegese do texto aproximando-se ao máximo das particularidades linguísticas das línguas originais. As traduções por equivalência semântica, que privilegiam o sentido do texto, podem proporcionar ao leitor múltiplas perspectivas interpretativas para o texto. As traduções simplificadas, às vezes chamadas de paráfrases, podem ser muito úteis para a evangelização e leitores leigos que não estão familiarizados com termos impregnados de conceitos teológicos como propiciação, graça, justificação e evangelho. Algumas traduções empregam a língua culta e são difíceis de compreender, outras são mais acessíveis para crianças e leitores com escolaridade baixa ou deficiente - realidade, infelizmente, ainda presente em nosso país.

As traduções bíblicas são necessidades reais e fazem parte de nossa história desde o princípio da religião judaico-cristã. As “divergências” entre as traduções são naturais e, ao mesmo tempo, enriquecedoras. Quem não conhece as línguas originais do texto bíblico pode ler e comparar as diversas traduções e assim analisar todas as nuances semânticas (do sentido do texto) em sua busca pela compreensão da Palavra de Deus. Cada tradução tem seu valor, cumpre seu objetivo de atender demandas que são naturais de seus leitores. E Deus, em amor e graça, não nos deixa desamparado. Louvado seja o SENHOR por sua providência que nos permite ter tantos recursos para o estudo de sua rica e viva Palavra!

Bibliografia de consulta:

FISCHER, Alexander Achilles. O texto do Antigo Testamento: edição reformulada da Introdução à Bíblia Hebraica de Ernest Würthwein. São Paulo, Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.

ALAND, Kurt; ALAND, Barbara. O texto do Novo Testamento: introdução às edições científicas do Novo Testamento Grego bem como à teoria e prática da moderna crítica textual. São Paulo, Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.

PAROSCHI, Wilson. Origem e transmissão do texto do Novo Testamento. São Paulo, Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012.

BARNWELL, Katherine. Tradução bíblica: um curso introdutório aos princípios básicos de tradução. São Paulo, Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.

SCHOLZ, Vilson. 40 anos de Bíblia na linguagem de hoje: as grandezas de Deus em nossa própria língua. São Paulo, Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.

GIRALDI, Luiz Antônio. História da Bíblia no Brasil. São Paulo, Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2ª edição.

 

 

 

 

 

João 3:16

"Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna."

Tito 3:8

"...que os que creem em Deus se interessem em usar o seu tempo fazendo o bem. Isso é bom e útil para todos."

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