Boa vontade nem sempre é uma virtude!

Certa feita, minha igreja resolveu encarar um projeto evangelístico meio megalomaníaco. Digo certa feita porque era da época que só tínhamos a clássica Almeida pra ler. O evento gerou diversos problemas e não teve o alcance esperado. Realizamos uma reunião para discutir os erros e acertos, acreditando que assim poderíamos evoluir e promover um evento melhor no ano seguinte. Durante a discussão dos erros, sem citar nomes, foi sugerido contratar um especialista para cuidar de certos aspectos do evento na tentativa de evitar problemas mais sérios no futuro. Alguém que conhecesse os meandros da coisa etc.

O problema? Claro que o irmãozinho, cheio de boa vontade, que cuidou do assunto em questão, ficou profundamente ofendido. Pôs-se de pé e falando disse: — Irmãos, eu fiz tudo de coração… foi por amor… Deus conhece meu coração… vocês não podem me julgar… Deus não escolhe capacitados, capacita os escolhidos… não se pode fazer acepção de pessoas… foi Deus que colocou no meu coração… — e por aí foi, um clichê gospel atrás do outro!

Que dificuldade fazer o irmãozinho entender que sua boa vontade não nos poupou de problemas e tão pouco gerou resultados. Nem sempre a boa vontade é uma virtude, pode ser em si mesma, mas em muitos casos, devido às contingências da vida, infelizmente, deve ser acompanhada de competência e outras coisas mais.

Você deve se perguntara, a essa altura, onde está isso na Bíblia. Acho que não há um versículo explícito, mas posso dar alguns exemplos nos quais as atitudes espontâneas de boa vontade de alguns personagens importantes na narrativa bíblica, quando desacompanhadas de outras virtudes, são reprovadas!

1 Crônicas 11:10-19 – Nosso primeiro exemplo pode ser a história dos valentes de Davi. Querendo agradar ao rei, tiveram a boa vontade de buscar água, mas colocaram suas vidas em risco. A boa vontade desacompanhada de prudência foi reprovada!

1 Crônicas 13:5-14 – O próprio rei, aquele que era segundo o coração de Deus (quer alguém mais ungido e aprovado que ele?), teve a boa vontade de levar a arca da aliança de volta para seu lugar; mas, por desconhecer ou ignorar como a arca deveria ser deslocada, provocou a morte de um homem. Sua boa vontade transformou seu evento festivo em tragédia. Boa vontade apenas não resolveu nada!

Ainda no mesmo evento, um homem, cheio de boa vontade, Uzá, tentou amparar a arca com suas próprias mãos. Não foi poupado por Deus. Será que obediência não é melhor que pura boa vontade?

Mateus 3:13-17 – João Batista, de boa vontade, quis se submeter ao batismo, mas estava errado. Pela boa vontade dele, não se cumpririam as Escrituras.

Mateus 19:13-15 – Os discípulos tiveram a boa vontade de não deixar crianças incomodarem o mestre, mas foram repreendidos.

João 13:1-10 – Pedro demonstrou a boa vontade de ter não só seus pés limpos como também mãos e cabeça, mas estava errado.

Marcos 5:1-20 – O geraseno demonstrou sua boa vontade de seguir seu libertador, pois para onde ele iria se só em Cristo encontraria a palavra de vida que liberta? Contudo, sua boa vontade era contrária à vontade de Deus.

Atos 19:11-16 – Alguns judeus exorcistas tiveram a boa vontade de libertar alguém da opressão demoníaca. É ou não é tal desejo uma virtude? Contudo, “#deuruim!” para a boa vontade desacompanhada de entendimento sobre autoridade que há no Nome.

Tá vendo? Nem sempre a boa vontade é uma virtude!

André R . Fonseca | mais sobre o autor>>