Fé vs. Ciência

“Ele estende os céus do norte sobre o espaço vazio; suspende a terra sobre o nada.” Jó 26:7 (NVI)

ZAPEANDO AS REDES SOCIAIS, encontro aquelas interpretações bíblicas do cientificismo como ferramenta hermenêutica. Acredito que nada poderia ser mais equivocado, inútil e até mesmo nocivo à fé.

A inspiração de uma revelação inerrante não implica verdade onipotente em todas as épocas, culturas e ciências. Quando lemos o texto bíblico precisamos nos deter ao seu próprio contexto. O cientificismo não faz parte da cosmovisão bíblica.

Talvez o leitor também precise ser lembrado que nem mesmo a ciência é inerrante em seu sentido pleno. A ciência, na verdade, vive da descoberta e superação de suas velhas premissas. Basta estudar um pouco da metodologia científica e a própria história da ciência para se convencer disso.

Se o cristão afirma crer na inerrância da Bíblia mas aponta para alguma descoberta científica como evidência dessa inerrância, não estaria arriscando negar a inerrância bíblica quando a evidência científica for retificada por nova descoberta? Se a bíblia é imutável, como poderia ganhar credibilidade daquilo que é tão mutável? Se a verdade bíblica é inquestionável, que benefício teria associando-se com um saber tão questionável? É, no mínimo, contraditório.

Jó 26:7 desafia as teogonias e a “Genesis” de religiões concorrentes em sua época. A discussão nada tem de científica, é teológica! A intenção original inspirada era teológica e fazia sentido tanto para o autor como para o leitor original. Cabe a nós, leitores do século XXI, entender o texto em seu próprio contexto, evitando a tentação de impor ao texto uma leitura do cientificismo pós-moderno, que lhe é estranha. Jó trata de mitologias, teogonias e cosmogonias do mundo antigo, no Oriente Médio. Cientificismo pós-moderno em Jó é bizarrice hermenêutica!

A impressão que tenho, amigos, é que alguns cristãos, na verdade, têm fé mesmo é na ciência. A fé na bíblia só sobrevive se a ciência ampará-la de alguma forma. Se tiverem que conviver apenas com o teológico, a fé murcha e morre. Contraditório!

André R. Fonseca
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