Mais que mil palavras

DIZEM QUE UMA IMAGEM vale mais que mil palavras. Olha, deve mesmo. É minha percepção desse universo chamado Instagram. No “feed”, não há texto; senão, algo limitado a dois mil caracteres para acompanhar sua foto – que pode ser qualquer coisa só para publicar o texto. Já pensei em dar um “print” para publicá-lo como imagem, mas também não funcionaria porque só rola foto quadrada no “Insta” – abreviação para os íntimos.

Enquanto penso nas alternativas, escrevo. Às vezes, passo horas ou dias reescrevendo meus pensamentos em poucas linhas. Se for um ensaio ou artigo: semanas, (quiçá!) meses. Até me dar por vencido; porque, convencido que está pronto, nunca estarei!

Sentado numa poltrona confortável de certo shopping outro dia, pensava na árdua tarefa da efetiva comunicação. Olhando para o nada, tive um momento iluminado pela claraboia acima de mim. Publiquei aquela foto despretensiosa da minha visão do teto do shopping. Foi uma curtida atrás da outra, de gente que nunca vi na vida! E nem tinha texto.

Acho que ninguém quer mais ler nada. Basta olhar. Acredita que minha foto do interior da Livraria Travessa rendeu ainda mais interações!? Palavras dos livros não fazem mais sucesso, mas a foto dos livros fechados nas estantes… essa sim! Alguns fazem a mágica de dizer muito por meio de imagem. Temos “O retorno do filho pródigo” de Rembrandt ou a foto da vietnamita Kim Phuc, do fotógrafo “Nick” Ut, mas só sei usar palavras – e com limitações!

Infelizmente percebo a dificuldade de muitos de lidar com a escrita. Iconoclastia de lado, esse tipo de comunicação visual carrega dois males: empobrece a comunicação, além de alimentar a vaidade e a cobiça dos olhos. Ainda que importante, prefiro insistir na escrita.

Quero ver milagres, buscar arrebatamento visual no show gospel com projeções psicodélicas. A homilia precisa de multimídia, e a bíblia, ilustrações das passagens mais icônicas. Novos tempos.

 

André R. Fonseca
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