Mulheres e éguas, qual a semelhança?

RESUMO: Este artigo visa apresentar uma exegese alternativa de Cantares de Salomão 1:9, analisando a gramática do original hebraico, a partir de uma perspectiva contextual do uso de animais na antiguidade, não apenas do ponto de vista do gênero literário poético do texto, propugnando a tradução alternativa encontrada na Nova Versão Transformadora (Bíblia NVT. Mundo Cristão, 2016), em oposição às tradicionais traduções em língua portuguesa.

AUTOR: FONSECA, André R.

ABSTRACT: This article aims to present an alternative exegesis of Song of Solomon 1:9, analyzing the grammar of the original Hebrew, from a contextual perspective of the use of animals in antiquity, not only from the poetic literary genre point of view of the text, advocating the alternative translation found in Nova Versão Transformadora (Bíblia NVT. Mundo Cristão, 2016), opposing traditional Portuguese translations.

AUTHOR: FONSECA, André R.

O livro de Cantares de Salomão sempre causou constrangimento por seu tom sensual, talvez seja o livro mais evitado nos púlpitos depois de Apocalipse. Ainda que o pastor Cláudio Duarte faça um trabalho bem instrutivo e descontraído nessa área entre evangélicos, sexualidade ainda é um tabu em nosso meio. Fora o constrangimento generalizado, um verso em particular dava trabalho para explicar sem causar o furor de muitas mulheres. Usar o verso com sua própria amada aproveitando-se da inspiração salomônica nunca pareceu poético, muito menos romântico. Pelo menos até agora!

“Comparo você, minha querida, com as éguas das carruagens de Faraó.” (NAA)

Assim tem sido traduzido o verso 9 do primeiro capítulo do livro de Cantaras nas principais traduções brasileiras. A explicação pode estar na exegese do texto, considerando os aspectos gramatical e literário. Vejamos o texto no original hebraico:

לְסֻסָתִי֙ בְּרִכְבֵ֣י פַרְעֹ֔ה דִּמִּיתִ֖יךְ רַעְיָתִֽי׃

A letra destacada em vermelho no texto hebraico acima é uma preposição, que está adicionada à palavra como prefixo. Essa preposição é abundante no texto bíblico e sua tradução é variadíssima. Há maior incidência para as alternativas “em”, “de” ou “com”, daí temos a tradução usual: “como éguas nas (em + as) carruagens de faraó…” (em algumas traduções inglesas) ou “como éguas das (de + as) carruagens de faraó…” nas traduções brasileiras.

Essa opção exegética gramatical é alimentada pelo fator literário. Trata-se de um texto poético, assim a comparação pode ser bem flexibilizada. Considerando que o texto foi produzido por um povo de outra cultura e época, precisamos admitir que os padrões estéticos podem não entrar em conformidade com os nossos. Égua em nossa cultura pode não representar os mesmos valores apreciados naquela cultura semita.

Para ser claro, considere a tanajura. O que poderia ser considerado ofensivo por outra cultura, comparando a mulher a um inseto “insignificante” ou “feio”; no Brasil, dado o biotipo das brasileiras e certa semelhança anatômicas das tanajuras, acaba considerado como elogio em nossa cultura. Trata-se de uma idiossincrasia brasileira que nenhum outro povo é obrigado a entender, mas predomina em nossa cultura – o exercício preferido das mulheres na academia é o agachamento, para privilegiar a anatomia “tanajuresca”, que já virou até poesia em letra de música (PAULA, Netinho de. Tanajura).

“Tana, tanajura, jura que me ama
Vem cá e beija minha boca

Você é uma coisa louca
Eu quero te agarrar
Que perna grossa, assim não há quem possa
Ai minha nossa! Não dá pra resistir
Eu quero um caso sério, não tem mistério
É só dizer que sim
Menina tanajura jura que nasceu pra mim

(Refrão)
Rebola banda
Vamos dançar la bamba
Ficar de perna bamba
Remexe tanajura, ah!”

O que se imaginava era que as tais éguas de faraó eram bem cuidadas e caprichosamente ornamentadas para “enfeitarem” as carruagens de faraó. Afinal, são as éguas que carregam a máxima autoridade do Egito. Se nossas autoridades, hoje, desfilam em pomposos Rolls-royces, por que o faraó deixaria por menos? É uma explicação razoável. Quem poderia dizer que não é? Contudo, não seria possível dizer se faraó tinha um número limitado dessas carruagens ou se havia apenas uma carruagem oficial com essas éguas especiais. Talvez o plural (carruagens) possa sugerir outra explicação que será explorada mais adiante.

Outra explicação já explorada era o uso de éguas nas carruagens de guerra. Tais éguas eram valentes e não entregavam os pontos nem mesmo feridas ou exaustas de longa viagem. Uma tentativa de harmonizar os valores, encontrando um ponto de contato entre duas culturas distintas – a nossa e a deles –, de forma a deixar o texto mais amigável e útil, até mesmo menos ofensivo – já que a imagem de uma égua não agrada nada as brasileiras, a não ser que estivesse associada a valores mais nobres como força e resiliência. Contudo, vejo dois problemas nessa leitura: primeiramente, despreza-se a essência do texto, que visa valorizar a beleza da amada. O livro está centrado em sua beleza e como essa beleza encanta o poeta. Poderia até mesmo dizer que o verso 9 está emoldurado por versos dessa natureza: “Se você, a mais bela de todas as mulheres…” (1:8, NTLH) e “o seu rosto é lindo no meio de duas tranças; como é formoso o seu pescoço…” (1:10, NTLH). E, além disso, não encontro as referências devidas para crer que éguas eram usadas nas carruagens do Egito. Pelo contrário, encontrei referências que apenas garanhões eram utilizados. Assim, abrimos caminho para uma terceira explicação que considero bem mais viável.

O estudo exegético gramatical deveria ser orientado pelo contexto cultural e não apenas pelo gênero literário. Assim, chegamos à conclusão que a tradução mais razoável para aquela preposição é “entre”, assim como a mesma preposição já fora traduzida alhures: “Anunciem entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas” (1Cr 16:24 NAA), para citar apenas uma referência com duas ocorrências da mesma preposição.

Qual o contexto cultural que justificaria essa leitura do texto? Como já informado, apenas garanhões eram utilizados pelos egípcios em suas carruagens. Éguas no cio foram usadas como tática de guerra, para confundir os cavalos em campo de batalha e frustrar a perícia dos cavaleiros. Numa batalha, Amenemhab capturou a égua que fora solta pelo inimigo no meio do campo de batalha, salvando sua cavalaria de um massacre. Entre as histórias de Herodoto, encontramos também outro exemplo de uso de uma égua para ludibriar um garanhão do rei Dario e assim ganhar um vantagem tática.

Assim, podemos dizer que o poeta, interessado em exaltar a beleza de sua amada e deixar claro como sua beleza mexia com ele, despertando seu interesse sexual – temática natural ao livro, compara devidamente sua amada a uma égua entre os garanhões das carruagens de faraó. Essa leitura pode parecer crua e mundana, mas tem mais amparo contextual, e somente esta cosmovisão do mundo antigo e o uso estratégico de animais na antiguidade permitem explorar a alternativa exegético-gramatical da preposição como “entre”. Deus criou a sexualidade humana. Ainda que corrompida pelo pecado em muitos aspectos, precisamos reconhecer que o desejo sexual é natural ao ser humano. Pudor demais na leitura desse livro em particular atrapalha um pouco. Muito bem fez a comissão de tradução da Nova Versão transformadora em assim ousadamente traduzir o texto:

“Você é cativante, minha querida, como uma égua entre os cavalos do faraó” (Cantares 1:9, NVT)

Quem desejar ampliar seu conhecimento sobre o uso de animais na antiguidade, recomendo a leitura das obras abaixo:

LEWIS, Sian e LLEWELLYN-JONES, Lloyd. The culture of animals in antiquity: a sourcebook with commentaries. Routledge, 2018.

KALOF, Linda. Looking at Animals in Human History. Reaktion Books, 2007.

 

André R. Fonseca
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