A Pepsi e o que achávamos do mundo

MINHA INFÂNCIA TINHA pique-esconde, pique-tá e pique-bandeirinha. Queimado, pau na lata e pé de lata também. Tinha a calçada de terra dura da vizinha com búlicas já cavadas, onde também rodávamos peão e apostávamos corrida de chapinha em longas trilhas riscadas no chão.

Na TV assistíamos Chaves, Pica-Pau e Tom e Jerry. O Batman era barrigudo, e acho que Christopher Reeve lançava a moda pega rapaz na época. Passava Lagoa Azul quase toda semana – é o que me recordo, tinha também Loucademia de Polícia e o início da trilogia De Volta Para o Futuro.

O rádio tocava música brasileira com letra, rima e enredo – era um luxo. Tinha coisa que não dava pra entender noutra língua, mas gostávamos de ouvir, como Lionel Richie, Cindy Lauper e Michael Jackson.

E já que falamos nele, Michael Jackson era garoto propaganda da Pepsi, marca que estava presente também em muitos dos filmes americanos que gostávamos de assistir. “Pode ser Pepsi?” não é um slogan novo, era na verdade a pergunta que sempre ouvíamos quando o vendedor não tinha a marca que dominava o mercado de refrigerantes no Brasil: a Coca-Cola.

Lembro-me muito bem desta certeza que tínhamos na época: enquanto a Coca-Cola dominava o mercado brasileiro, era a Pepsi a campeã nas terras do Tio Sam. Ou o que mais poderia explicar o monopólio da marca Pepsi nos filme americanos? Eles tinham até um Michael Jackson pra fazer propaganda!

Bem, crescemos e aprendemos que a realidade, na verdade, nunca foi essa. Nossa inocência e ignorância distorciam a nossa leitura do mundo. Além disso, podemos dizer que a cultura americana é muito maior do que aquilo que podemos encontrar fragmentado em filmes e seriados. Cavaco não é banjo, minha cultura tupiniquim de nada serve para ler e entender a cultura americana, e vice-versa. Ou você vai agora querer me convencer que mulheres no Brasil deveras andavam com frutas na cabeça? Ficamos com a impressão equivocada da Pepsi, e eles, com Carmen Miranda.

O mesmo acontece quando lemos a bíblia ou queremos fazer leituras de uma cultura tão peculiar quanto aquela da Palestina de milhares anos a partir de recortes literários, fragmentos de achados arqueológicos ou de nossa cosmovisão e cultura moderna.

Precisamos, portanto, lembrar sempre que, em nossa busca da contextualização bíblica, podemos nos convencer de uma realidade que pode ser questionada. Há divergências e precisamos ter consciência delas para considerá-las em nossa leitura. É possível ter que abraçar duas ou mais leituras do mesmo texto. A certeza fica reservada só para aqueles que ainda são crianças na fé. E nossa visão contemporânea e brasileira do mundo geralmente só faz distorcer a cosmovisão que construímos dos personagens bíblicos.

 

André R. Fonseca
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