Entre a Terra Santa e Caruaru

JÁ FAZ ALGUNS ANOS, fui acompanhar meu pai, que já muito saudoso, desejava rever a família em Caruaru, terrinha mais famosa nos dias de São João com sua fogueira altíssima – eles se orgulham da altura da fogueira que montam todos os anos – e algumas outras tradições. Os bacamarteiros ainda sobrevivem, mas a Maria Fumaça da qual cantava Luiz Gonzaga não passa mais por lá. Só restaram os trilhos, que ainda passam por trás da casa da minha tia em direção a uma pracinha ali perto.

Tive a oportunidade de ouvir e revisitar histórias que meu pai contava sobre sua infância. Conheci os amigos do meu pai e também aqueles que tinham histórias sobre meu avô. Visitei o sítio do meu avô, pela primeira vez, em 1988. Sem acesso à água encanada no meio daquele meio sertão, um pouco afastado da cidade de Caruaru onde estava a modernidade, meu avô construiu três barreiros. São grandes reservatórios de água construídos artesanalmente no chão para reter a água da chuva. Um barreiro era destinado ao consumo de água – para beber e tirar água para o banho, um segundo para lavar roupa e outro para prover água para os animais – gado, ovelhas e algumas galinhas.

O problema era quando havia estiagem por prolongados períodos. Muitos barreiros secavam. As pessoas precisavam caminhar quilômetros para buscar água. Quem comprou o sítio do meu avô teve a oportunidade de crescer com ele, era criança de uma família vizinha ao sítio. Contou-me sua história e de como se lembrava do meu avo.

– Seu Vicente era um homem bom. Nos dias de seca, nossa família pegava água no barreiro do seu avô. Dizia que não precisávamos pedir por água, era só entrar e pegar. Apenas recomendava que mantivéssemos a porteira sempre fechada, para que seus animais não escapassem, e que não pegássemos mais água do que precisávamos. Se desperdiçássemos, não sobraria para os demais. E ele estava certo, porque não eram poucos. Às vezes, filas se formavam para acessar o barreiro. Gente que vinha de longe.
– Mas o barreiro do meu avô não era o único da região. Certo?
– Sim. Mas muitos vizinhos que tinham medo de compartilhar a água acabavam com seus barreiros secos também. O barreiro do seu Vicente era sempre aberto para que todos pegassem água dele livremente. E sou testemunha que, em toda minha vida, nunca vi aquele barreiro do seu avô secar! Está lá nos servindo até hoje.

De todas as lições que ali aprendi, talvez, a mais valiosa seja esta: ainda que Caruaru esteja separada da terra prometida em tempo e distância, ainda há o mesmo Deus que faz ecoar sua verdade por toda a terra, de geração em geração… “O bom nome vale mais do que muita riqueza; ser estimado é melhor do que ter prata e ouro” (Pv 22:1). “Desprezar os outros é pecado, mas aquele que faz o bem aos pobres é feliz” (Pv 14:21). “Ser bondoso com os pobres é emprestar ao Senhor, e ele nos devolve o bem que fazemos” (Pv 19:17). “O que distribui com generosidade enriquece; o outro, que retém mais do que é justo, empobrece” (Pv 11:24).

André R. Fonseca
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