Velharias do baú

JESUS DISSE QUE um escriba bem instruído tira coisas novas e coisas velhas de seu “baú”. E parece que resolveram tirar de lá essa história de heresia da música “Ninguém explica Deus”, do grupo Preto no Branco. Só que continuo sem fé nos escribas de Facebook, me perdoem. “Ninguém explica Deus” e “Tudo se explica em Deus” são coisas diferentes. Isso não pode ser, de forma alguma, uma correção nem mesmo resposta àquilo.

Segundo os críticos, parece que, agora, alguém finalmente consertou a música. Não sei vocês, mas dá tristeza ver quando não se consegue diferenciar uma coisa de outra. Ser bíblico, para eles, é o mesmo que estar em harmonia com suas próprias crenças – de um cristianismo peculiar, ou de acordo com sua superficialidade em leitura da Bíblia. Ser bíblico, como em “teologia bíblica”, para respeitar certos limites no que se fala a respeito ou do que se conhece de Deus, tampouco. Não há esperança. Não há conhecimento sistematizado ou teológico que dê jeito.

Há quem já passou do estado de neófito, mas ainda insiste num vício de reagir espontaneamente a tudo que acontece na velocidade frenética da internet. E isso compromete a habilidade de qualquer escriba por mais competente que seja. Uma coisa é ter opinião imediata sobre qualquer coisa, outra é querer, a partir disso, sair gritando “herege” pra todo lado.

Eu mesmo já sofri muito com isso, nos dois lados. E diria que ainda estou em crise… mas fui convencido, por erros próprios e observando os erros de terceiros – não há nenhum problema nisso, que teologia não se produz assim. É preciso pensar e remoer cada ideia, testar todos os argumentos, para daí, então, dizer que tem alguma opinião. Sou aquele amigo chato que fica incansavelmente insistindo no mesmo debate. Eu sei. Tem teimosia? Ah! Tem sim… mas o que quero mesmo é ser convencido, ou por mim mesmo ou por eles. Tanto faz, eu busco a verdade. E quem acha que está sendo testado por minha insistência não sabe quanto tempo fico reconsiderando tudo o que foi dito só para testar a mim mesmo desde o início.

Melhor voltarmos ao escriba do primeiro século. Ele precisava revirar seu depósito, preparar “papel”, tinta e pena. Se não quisesse desperdiçar recursos caríssimos – a escrita era artigo de luxo, ele precisava pensar muito bem no que queria dizer antes de mergulhar a pena na tinta e lançá-la sobre o “papel”. Era um ato muito bem pensado. Outro caminho mais seguro mas não menos trabalhoso era primeiramente escrever sobre uma placa de argila fresca com estilete. Assim, com um dedo mergulhado em água, seria fácil apagar qualquer erro e tentar de novo. O mais importante era poder reler, ponderar, ter a chance de mudar de ideia e reescrever. Percebe-se que o conteúdo tinha que justificar o trabalho ou valor da escrita.

Hoje não é mais assim, basta um clique ou até “esbarrar” na tela do celular. Não custa nada! Reagir com uma mãozinha ou carinha sorridente mais fácil ainda. Quer, meu amigo leitor, encontrar algo mais dinâmico e preguiçoso que o autocompletar dos teclados “smart”, tão inteligentes que sabem até melhor do que nós mesmos o que queremos escrever? Sem falar daqueles que reagem e emitem opinião só pelo enunciado, não precisam nem mesmo ler o texto ou consultar as mesmas fontes. Um capricho que a pós modernidade usurpou sorrateiramente de todos os pensadores digitais.

Como já escrevi sobre esse mesmo assunto antes, música e teologia são minha praia, sinto-me à vontade para dizer que posso ter uma opinião sobre o assunto. Alguém, só agora, consertou a música? Mas a música já era um concerto! Um primor musical como não se via há muito tempo no mundo gospel. Procuram heresia na letra como quem procura pelo em ovo. Poderiam até alarmar os distraídos para o risco de um agnosticismo na letra, mas não é para ir tão longe. É preciso admitir que, pelo menos, ignoram o fato de que não são poucos os autores bíblicos que declararam coisas semelhantes quando reconheceram a grandeza imensurável de Deus diante da insignificância da existência humana.

Quem conseguir colocar Deus numa caixinha de fósforo que viva feliz com ele. Eu continuo achando que vou precisar de uma eternidade para viver num estado de contemplação sem fim para entendê-lo, quiçá, explicá-lo. E que Ele, por misericórdia, não me negue isso…

 

André R. Fonseca
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