Teologia em crônicas

ENQUANTO MUITOS TEÓLOGOS BRASILEIROS buscam criar uma teologia tupiniquim, talvez motivados pelo desconstrucionismo e descolonização – Deus me livre entrar nessa furada! -, cismei com outra ideia: por que não “teologar” em forma de crônica? A crônica é tão brasileira. Vai que dá certo mesmo sem o talento de um Veríssimo, Jabor ou Lispector… por que não? Posso muito bem me valer daquela máxima da cultura evangélica sobre “capacitados e escolhidos” – quem ler entenda – e que ninguém me julgue!

E já começo rascunhando a primeira crônica envenenado. Confesso… Isso porque ouvi dizer que boa crônica tem que ter humor, crítica, sarcasmos, ironia etc. “Mas tinha que inaugurar assim?” Talvez não, mas como é a primeira, dá um desconto. Juro que vou melhorar.

Vamos recomeçar?

E já começo rascunhando a primeira crônica explicando o que é esse gênero literário tão tipicamente brasileiro. Bom, crônica vem da palavra grega “chronos”, uma clara referência à mitologia grega. Cronos era o rei dos titãs, o grande titã do tempo, filho de Urano e Gaia.

Como pode a crônica, tão brasileira, ter essa origem na mitologia pagã? Os teólogos de Facebook certamente me apedrejarão quando virem minha proposta promíscua de falar do sagrado em linguagem profana, desse gênero literário com clara origem no paganismo, pelo menos em sua etimologia. Não é assim que pensam sobre o natal e outros símbolos da cristandade?

Se o natal é pagão, meu Deus, o que é sagrado!? Que bíblia essa gente lê? Certamente não é a mesma que leio. Tenho medo até. Se os tais, que já deveriam ser mestres (Hb 5:12), mas não sabem lidar com o natal – celebrado por reis, pastores e anjos -, como sobreviverão depois de descobrirem que o profeta Isaías (34:14), como oráculo de Deus, falou de uma tal Lilith, espécie de bruxa da noite, lenda dos povos que rodeavam Israel? Como o símbolo do sol alado, do paganismo egípcio, foi parar no selo do rei Ezequias? Raabe e Leviatã em Jó (9:13 e 41:1) não seriam também criaturas de uma mitologia profana?

Pedro ouviu da própria boca do Cristo: os portais do Hades não prevalecerão contra a Igreja (Mt 16:18). Hades era o nome do mundo dos mortos para humanos na mitologia grega. Deve ter sido por isso que Pedro se sentiu à vontade para mencionar o Tártaro (2Pe 2:4), andar debaixo do Hades, onde os deuses caídos eram aprisionados por Zeus. Nem Paulo escapou, se aproveitou de um monumento para um deus desconhecido, um entre outros deuses pagãos, para representar e assim apresentar o Deus verdadeiro!

Acho que já deu pra entender, não é? Pretendo escrever crônicas para falar das nossas questões do dia a dia com olhar teológico. Vai ser à vera, mesmo sem ser Veríssimo. Afinal, já expliquei, Deus não escolhe capacitados. Só não espere demais do neófito cronista. Por natureza, o texto é ligeiro, com o mínimo de reflexão. É mera opinião, leia como tal.

Até a próxima!
André R. Fonseca
Mais sobre o autor