A relevância entre a vocação e o profissionalismo

Minha turma começou com um bom número, e, dessa turma original, sobramos apenas eu e meu amigo Geraldo. Muitos desistiram por variados motivos. Eu mesmo pensei em desistir muitas vezes. Por que tinha que ser tão difícil? Por que atender essa exigência de passar por um seminário para cumprir com a vocação?

E por falar em vocação, não sei por que as pessoas insistem com essa ideia que só a vocação pastoral produz seminarista. Há outros ministérios na igreja que dependem de um bom preparo teológico. Acrescentaria que todo cristão deveria perseguir esse preparo! Diferente dos meus amigos de turma – ou pelo menos a maioria deles – não fui parar num seminário por vocação pastoral. Entendo que a igreja também precisa de mestres.

Seja lá qual for a vocação ministerial que nos levou ao seminário, ela não é exatamente a mesma da vocação profissional como engenharia, medicina, letras… Ninguém deseja aqui fazer do seu chamado um comércio, o ganha pão. Estamos aqui para servir nosso Senhor. Contudo, as exigências no preparo acadêmico são as mesmas!

Quem vai para a universidade estudar medicina será um “profissional” da medicina. Quem vai para universidade estudar engenharia será um “profissional” da engenharia. Equem vai para a universidade estudar teologia será também um “profissional” como os outros?

Segundo Justo Gonzáles, no caso dos estudos teológicos, as universidades se transformam em seminários para trazer a teologia de volta do secularismo para o campo religioso. O seminário, como “sementeira”, seria o lugar mais adequado no qual as sementes, nós, os vocacionados, seriam cuidadas, regadas, cultivadas em boa terra.

Mas até onde nos distanciamos do profissionalismo presente em todas as outras áreas do saber humano neste mundo de exigências? Onde está a relevância entre nossa vocação e o profissionalismo? Fui convidado para falar exatamente sobre isso. Aqui está minha resposta:

No princípio era a Palavra e a palavra ainda não estava escrita. Parece estranho, mas a fé já operou sem o recurso de um texto. Se Moisés é o autor de Gênesis, onde estava a teologia, o conhecimento sobre Deus, no período dos patriarcas? Tradição oral? Alguns textos soltos de tradições diferentes?

Hoje é possível comprar uma Bíblia por dois reais na SBB, e estamos tão acostumados com o livre acesso à Bíblia – louvado seja Deus por isso! – que não paramos, por um segundo, para pensar em como se buscava o conhecimento sobre Deus no tempo em que não havia Bíblia.

Assim como a Antiga Aliança antecede a própria Escritura, a Nova Aliança também foi inaugurada sem texto. A religião do Caminho prosperava pelo poder do Espírito Santo através do testemunho dos discípulos do Cristo. Claro, apontando para as Escrituras da Antiga Aliança, tudo se cumpriu – “são as Escrituras que testemunham a meu respeito”, disse Jesus. Mas, a verdade é que o Novo Testamento ainda não estava lá.

Só um pouquinho mais tarde, homens, inspirados por Deus, escreveram epístolas e evangelhos. Esses documentos circulavam entre as comunidades cristãs, mas não é possível medir a real dimensão da propagação dos ensinos do Novo Testamento pela distribuição de cópias feitas à mão naquela fase apostólica e nos primeiros séculos seguintes. Se não temos, hoje, a carta de Paulo endereçada aos laodicenses, é fácil supor que alguma coisa também ficou faltando para muitos cristãos nos primórdios da igreja.

Não estou aqui querendo negar a inspiração da Bíblia e questionar sua inerrância. Tão pouco desprezar sua relevância! Nós, batistas, cremos que a Bíblia é a única autoridade, a única regra de fé. O que desejo com esta introdução é apenas destacar a realidade de mundo, daquela narrada nos textos bíblicos, para entender o desafio que temos diante de nós, hoje, em nossa realidade de mundo.

O modus operandi da fé foi evoluindo com a humanidade. Dos discursos apologéticos da patrística às profundas elucubrações teológicas da escolástica, a Súmula Teológica de Tomas de Aquino figura como monumental catedral gótica, na qual ele inclui todo o universo e os vários elementos servem para contrabalançar os outros, de tal forma que todo o edifício sobe a alturas inesperadas. E foi assim que a cobrança por uma produção intelectual elevada entrou em nosso pacote de exigências na vocação ministerial.

A Reforma protestante foi concebida e nasceu no ambiente universitário, e foi nas universidades que surgiram seus líderes durante várias gerações. Martinho Lutero, além de sacerdote e monge agostiniano, foi, acima de tudo, professor universitário.

Melâncton, que recebeu o título de Mestre da Alemanha, se interessou pela educação ministerial após constatar que alguns sacerdotes haviam aceitado a fé da Reforma simplesmente, mas sem entender as diferenças entre a fé reformada e a católica romana. Alguns não sabiam ler e tinham poucos textos decorados, como o Credo, os Dez Mandamentos e o Pai Nosso.

A resposta para essa situação foi a crescente ênfase na necessidade de expandir o escopo da educação teológica. Até então, o que se fazia com o pastor ou sacerdote era a ordenação, sendo que os estudos poderiam ser realizados mais tarde ou não. Mas já em meados daquele século, o normal era que os candidatos ao ministério luterano fossem provenientes das universidades, onde faziam estudos teológicos e se preparavam para a tarefa de ensinar o povo.

Foi inaugurada uma corrida pelo melhor preparo dos vocacionados dos dois lados, católicos romanos e protestantes. O currículo foi sendo ampliado para atender a demanda de um novo mundo exigente no campo intelectual, um desafio cada vez maior diante dos vocacionados.

Nada disso ocorreu na contramão do mundo. Se o verbo se fez carne na plenitude dos tempos, o que esperar das outras coisas? Se o ambiente intelectual, político e tecnológico, a partir do século XVI, promoveu o “profissionalismo” dos vocacionados ao ministério, o que devemos esperar de nossos dias? Se a rudimentar imprensa de Gutenberg alavancou tudo isso, o que esperar da internet no nosso século?

Já percebemos, há muito tempo, que aquela proposta do homem universal do século XV não era viável. Acreditava-se, àquela época, que era possível instruir o homem para dominar todas as áreas do saber. Um homem que sabia de tudo, um homem universal. Que frustração…

A cada dia, o que cada um de nós consegue saber é apenas uma pequena fração do conhecimento humano. Por mais que um vocacionado se dedique aos estudos, sempre haverá alguém em sua congregação que, em algum outro campo do conhecimento, saberá mais que o ministro. E se considerarmos apenas o conhecimento teológico, ainda que tivesse a vida inteira dedicada aos estudos apenas do evangelho de João seria impossível saber de tudo o que hoje se sabe, se discute e se está descobrindo a seu respeito.

O profissionalismo, em todas as áreas do saber, cresce de acordo com a demanda de um mundo de exigências. Por que seria diferente com a teologia, a rainha das ciências? Nosso desafio é encontrar a relevância de nossa vocação e do profissionalismo que somos cobrados, pois somos agentes dessa evolução desde o início. Não podemos abandonar a corrida porque o mundo continuará sua carreira e ficaremos para trás.

A educação teológica não deveria ficar restrita aos vocacionados. Deveria ser a preocupação e dedicação de todo cristão que entende a importância de conhecer o Deus que adora e serve, de estar preparado para apresentar os argumentos, os motivos, a razão de sua fé.

O desafio de nossa vocação hoje é: não apenas conhecer Bíblia e teologia, mas também e acima de tudo saber como usar esse conhecimento de forma a promover o diálogo com o restante do conhecimento humano. Esse desafio não é fácil, mas precisa ser encarado com bravura!

Precisamos romper com essa cultura do anti-intelectualismo em nossas igrejas, que não só compromete o conhecimento das ciências de modo geral, mas já, há algum tempo, compromete até mesmo o conhecimento teológico e bíblico.

Vivemos uma geração de crentes que não conhece Bíblia! Começamos a viver a triste realidade de encontrar ateus e devotos de outras religiões mais proficientes no conhecimento bíblico do que os cristãos! Tenho medo do tempo em que não seremos ameaçados pela espada, pelo fogo ou por leões, mas, pela nossa própria ignorância.

Respostas prontas já não nos ajudam mais a sobreviver nesse mundo de constantes mudanças, de um profissionalismo exigente que ajudamos a engatilhar lá no passado e deu no que deu… Está aqui! Cobrando nossa responsabilidade nessa parceria “vocação” e “profissionalismo”. Essa carreira é nossa! Precisamos retomar a corrida do ponto que tropeçamos. A humanidade avança, e precisamos estar prontos. Assim, se o mundo nos forçar a correr com ele uma milha, estejamos prontos para correr duas.

Soli Deo Gloria!

O presente discurso de formatura foi realizado quando convidado para representar os formandos da turma de convalidação do bacharel em Teologia no Seminário Teológico Batista Carioca, Rio de Janeiro, em 2015.


Sobre o autor:
André R. Fonseca

contatos@andrerfonseca.com


 

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